Especial para o blog por Carlos Leser
.jpg)
“Na galeria, cada clarão
É como um dia
depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão”.
As Vitrines
Chico Buarque de Holanda
O significado que a letra refere não é este, mas a imagem é minha e é nisto que eu acredito: Chico Buarque é poesia derramada. Para mim , aqui no Brasil a síntese entre poesia literária e poesia musical está em Chico Buarque de Hollanda . É dele a frase “tudo o que é ligado à palavra me interessa”. Múltiplo, Chico se desdobra entre a dramaturgia , a ficção, o cinema e a composição dedicando a todas estas artes um caráter social que acabou indissociável de sua própria personalidade.
Suas primeiras composições datam de 1964 sem no entanto provocar tanto alarde quanto seus olhos claros, ainda que já delineasse raízes ligadas ao samba e letras que ingenuamente mostravam preocupação com questões sociais.”Pedro Pedreiro”, música de 1965, pode ser considerada o marco inicial de sua carreira porque ali ele se reconheceu fazendo algo realmente seu, pós-Bossa Nova: ”Pedro pedreiro penseiro esperando o trem / Manhã parece, carece de esperar também”.
A palavra “penseiro” é um neologismo seu. Como ele disse em uma entrevista era a sua vontade de querer ser Guimarães Rosa, no entanto, logo reconhecido por ele como algo impensável.
Nesse mesmo 1965 se entrega a um projeto que provavelmente hoje um jovem de 21 anos não se arriscaria. Musicar “Morte e Vida Severina”, poema épico de João Cabral de Melo Neto, era uma ideia que o poeta nordestino repudiara de inicio. No entanto, tamanho sucesso aconteceu, tanto em palcos brasileiros como europeus, que o próprio João Cabral por fim aceitou que esta sua obra era mais de Chico Buarque que dele próprio.
Tárik de Souza no livro “ O som nosso de cada dia” reproduz o que disse Chico Buarque: “É preciso confessar que devo muito a experiência com a música da peça Morte e Vida Severina. Aquele trabalho garantiu-me que melodia e letra devem e podem formar um só corpo”.
Em 1966 ganha com a sua “A Banda” ao lado de “Disparada” de Geraldo Vandré e Théo de Barros, o 2º festival de musica popular brasileira. Com uma letra de narrativa simples e acessível rapidamente tanto música quanto autor caem no agrado popular: “Estava à toa na vida / O meu amor me chamou / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / A minha gente sofrida / Despediu-se da dor / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor”.
Ainda que repleta de lirismo e singeleza existe em seus versos a triste ideia final de que “tudo tomou seu lugar depois que a banda passou” . A banda era o diferencial e assim como a própria música deixa saudades quando passa..
Ainda sobre “A Banda” Carlos Drummond de Andrade disse:”a felicidade geral com que foi recebida a passagem dessa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de 20 anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor”.
Reinava a era dos festivais no nosso país e frente a repressão política e a censura que se estabelecia, a música passava a ser o instrumento para todo o tipo de revolução. Os jovens universitários que lotavam os ginásios e teatros onde ocorriam as apresentações sabiam disso e vaiavam ferozmente todos aqueles que subiam ao palco e não diziam em sua letras o que eles queriam ouvir. Hinos de resistência se faziam necessários e quanto mais explícitas as letras melhores.
Por isso que em 1967 durante o 3º Festival de Música Popular Brasileira , a música de Chico buarque “Roda Viva”, que ficou em 3º lugar, causou furor na platéia e acendeu a paranóia dos militares: “Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu / A gente estancou de repente / Ou foi o mundo então que cresceu... / A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar / Mas eis que chega a roda viva / E carrega o destino prá lá ...”
Nestes versos, Chico falava da perda da voz ativa, da liberdade de expressão, da roda-viva que rápida leva o destino “prá lá”, que não se sabe ao certo onde é. E que levará também a beleza da roseira, o encantamento da viola e sequer nos deixará ter a saudade disto. Poesia contra as sombras da opressão.
Em contrapartida outra música sua, dessa vez em parceria com o maestro Tom Jobim, não teve um destino tão tranquilo. “Sabiá” foi vencedora em 1968 da fase nacional do 3º Festival Internacional da Canção, deixando para o 2º lugar “Prá não dizer que não falei de flores” de Geraldo vandré, esta sim totalmente identificada contra o sistema político e por isso adorada desde sempre pela platéia jovem. Pois “Sabiá” dizia em sua letra carregada de lirismo e poesia, por isso doce demais e talvez por demais imcompreendida: “Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Vou deitar à sombra / De uma palmeira / Que já não há / Colher a flor / Que já não dá”.
A professora e ensaísta Adélia Bezerra de Meneses encontrou em Chico Buarque um artesão da linguagem e vê nessa canção uma similaridade com a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, porém configurada como um apelo maior ao tempo atual negado , como um presente inexistente, sem palmeiras e sem flores.
Neste mesmo ano de 1968, “Roda Viva” transforma-se em peça teatral, é encenada, aplaudida e destruída, pela repressão. Reina a selvageria e atores são espancados.
Em janeiro de 1969 Chico Buarque decide exilar-se na Itália de onde volta em março de 1970 e conforme a recomendação de Vinícius de Moraes, fazendo barulho. E que barulho! Transformado contra a própria vontade em porta-voz da resistência faz de “Apesar de Você” mais do que uma música. Era a própria voz do povo brasileiro: Hoje você é quem manda / Falou, tá falado / Não tem discussão, não. / A minha gente hoje anda / Falando de lado e olhando pro chão / Viu? / Você que inventou esse Estado / Inventou de inventar / Toda escuridão / Você que inventou o pecado / Esqueceu-se de inventar o perdão”.
Não havia como negar que esta música caía como uma luva para o presidente da época. Mas Chico nega até hoje. Ele afirma que o “você” dizia respeito não ao general mas sim a generalização de todo o sistema repressor da época. Azar do censor que não percebeu o recado e achou que a letra era sobre uma mulher. No entanto, estabelecida a desconfiança os discos foram recolhidos, a música proibida e o censor demitido.
No ensaio “Chico Buarque : a Música contra o Silêncio”, de 1973, Affonso Romano de Sant’anna diz:
“ Esta análise em linguagem jornalística, da obra de Chico Buarque, tenta aprender algumas constantes de sua poesia, demostrando que sua obra se desenvolve sistematicamente como uma “construção”, onde todas as imagens, mesmo as mais banais, contribuem para a reafirmação da música como atividade destinada a romper o silêncio do cotidiano e a fazer falar as verdades que os homens querem calar. Em Chico a música é possibilidade de comunhão, a lembrança do paraíso perdido, a música como abertura para a vida”.
A palavra “Construção” referida por Affonso Romano de Sant’anna é justamente o título do disco de 1971 de Chico Buarque. Conforme o poeta práxis e ensaísta Mário Chamie “ o título Construção já é em si um chamado e uma advertência”. A música homônima, exemplo de poesia práxis, revela a crônica de um operário que ao diariamente construir o progresso não consegue construir a sua própria existência e torna-se, vivo ou morto, o mesmo nada na sociedade. Chico Buarque chega a sua maturidade artística: “Amou daquela vez como se fosse máquina / Beijou sua mulher como se fosse lógico / Ergueu no patamar quatro paredes flácidas / Sentou pra descansar como se fosse um pássaro / E flutuou no ar como se fosse um príncipe / E se acabou no chão feito um pacote bêbado / Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado”.
Outra canção emblemática, desta vez em parceria com Gilberto Gil é “Cálice”. Realizada a em 1973 e imediatamente censurada tem nos seus versos a leitura direta daqueles tempos: “Como beber / Dessa bebida amarga / Tragar a dor / Engolir a labuta / Mesmo calada a boca / Resta o peito / Silêncio na cidade / Não se escuta...” . Cálice / Cale-se, um jogo de palavras jogadas contra o silêncio.
Cada vez mais perseguido e censurado Chico refugia-se em pseudônimos e surge então Julinho da Adelaide que grava “Acorda Amor”. Chico ria de seus algozes: “Acorda amor / Eu tive um pesadelo agora /Sonhei que tinha gente lá fora / Batendo no portão, que aflição / Era a dura, numa muito escura viatura / Minha nossa santa criatura / Chame, chame, chame lá / Chame, chame o ladrão, chame o ladrão”. Afinal, melhor o ladrão que a repressão.
.jpg)
A passagem dos anos trouxe a abertura política e uma sensação de liberdade. Todavia, o Brasil não deixava de ser o país dos contrastes, dos sonhos, dos pivetes, dos sambas, das ironias. Enfim, o Brasil de Chico Buarque que não limitava suas canções aos microfones. Elas estavam em peças de teatro e filmes e suas letras feitas sob medida eram de uma sensibilidade à flor da pele. Como no filme “Bye, bye, Brasil” de Cacá Diegues, que mostra a viagem do grupo mambembe Rolidei que tinha como missão levar o seu espetáculo para a população pobre que ainda desconhecia a televisão. A letra é como um relato que dura o tempo das fichas telefônicas: “Baby, bye bye / Abraços na mãe e no pai / Eu acho que vou desligar / As fichas já vão terminar / Eu vou me mandar de trenó / Pra Rua do Sol, Maceió / Peguei uma doença em Ilhéus / Mas já tô quase bom / Em março vou pro Ceará / Com a benção do meu orixá / Eu acho bauxita por lá/ Meu amor”.
A poética de Chico Buarque se espalha e os campos ao seu redor são vastos e amplamente semeados. Curiosamente no documentário “ Palavra (En) cantada”, de 2009 e dirigido por Helena Solberg, o próprio Chico diz não querer ser chamado de poeta, porque ele não se julga poeta, e admite que quando compõe o faz a serviço de uma melodia o que não impede que algumas de suas letras tenham qualidade poética.
Uma bela definição desta poética buarqueana vem do professor e ensaísta Anazildo Vasconcelos da Silva que em 1974 afirmou:
“[...] Enquadrar a poesia de Chico Buarque a uma circunstância, qualquer que seja a natureza desta circunstância, é negar-lhe a validade poética e reduzi-la a coisa nenhuma. Acreditamos [...] que a poesia de Chico Buarque não se prende a um contexto circunstancial, mas a um contexto humano existencial do século XX. Sua poesia, como a poesia de um Fernando Pessoa, de um Carlos Drummond de Andrade ou de um João Cabral de Melo Neto, pretende significar o homem do século XX inserido na trajetória da Humanidade”.
E, enfim, é isto que Chico Buarque de Hollanda é, um músico-poeta intimamente ligado com o seu tempo, cuja obra se confunde com seu tempo, com a universalidade, com as desigualdades, com seu desencanto e a transformação deste em canção. Em poesia travestida de canção. Em música para ser lida, ou como disse Affonso Romano de Sant’anna, uma música contra o silêncio.
Muito já foi falado e escrito sobre Chico Buarque de Hollanda. Este pequeno ensaio não pretende ser um resumo da sua obra, longe disto, mas como foi dito no início, pretende ressaltar a condição deste autor de ser o sintetizador daquilo que melhor se faz em termos de união poético-musical no Brasil. Há ainda que se falar, por exemplo, de Noel Rosa, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Lenine. Cada um com sua poesia e música.
Mas isto já são outros ensaios.
Por fim uma pequena obra de Chico Buarque de Hollanda. A música “Uma Palavra” de 1989.
Uma Palavra
Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
Palavra dócil
Palavra d'agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra
Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra
Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra.
O montenegrino Carlos Leser é poeta. Publicou em 2009 o livro In extremis pela editora Cataventos.