Aprender é a palavra chave. E aprender é aprender também a ser humano. Há quem ensine esta disciplina. Um professor dessa gentileza, dessa arte difícil que é a grandeza de caráter, que estava sempre pronto a ensinar o caminho da sensibilidade, do sorriso, da boa vontade, era Paulo Hecker Filho. Poeta, escritor, tradutor, dramaturgo, jornalista, cronista e crítico literário, era também mestre da técnica, do bom conselho literário, da visão vasta e profunda sobre a arte da narrativa. O que não escondia. Se tinha uma vontade, era deixar vivo o que conhecera e aprendera.
Quando, no início dos anos noventa o conheci ao enviar na cara dura alguns poemas para que desse uma opinião, opinião que ele deu com entusiasmo, comecei a admirar o homem Paulo Hecker Filho. Porque o escritor eu já admirava. E suas opiniões, que tenho até hoje, eram assim: se gostava ou não gostava o porquê era claro, didático, irrefutável. De lambuja, dava um caminho para salvar o poema. E a alegria que era quando ele dizia que um poema estava praticamente pronto?! E essas pitadas de valorização vinham datilografadas, imagino pelo tipo, numa máquina muito antiga. O homem era fiel às suas tradições também. A mesma máquina com que trocara cartas com Cecília, com Manuel Bandeira? Será? Quero crer que sim. É uma poesia também.
Poucos meses depois fez, por pura gentileza, uma leitura crítica completa dos originais de Um dia a lua cai, que eu publicaria em 1994. Depois, para arrematar, para demonstrar o quanto seu coração era capaz de abarcar, escreveu sobre meu trabalho na imprensa da capital. E, mais adiante, o máximo: escreveu o prefácio do meu Breviário Profano, que desde o início ele incentivou, corrigiu e abraçou. Livro lançado, mandou-me este beijo em forma de palavras:
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Paulo Hecker Filho nasceu em 1926 e morreu em 2005. Neste intervalo de 79 anos, uma vida cheíssima. Não cabe aqui neste post dissecar sua vida. No máximo dizer que era um homem fiel às suas opiniões, um iconoclasta raro que seguia a máxima de Voltaire: sua obrigação diante da vida era dizer o que pensava. O preço? Caro, pagou sem regatear. Desde a doença da esposa, do filho, ao assassinato da filha. Tudo suportou estoicamente. Inclusive, como bem coloca o escritor Paulo Bentancur, o crime que foi o meio intelectual gaúcho não ter dado a Paulo Hecker Filho seu devido valor.
E tinha mais Paulo para admirar. O Paulo escritor. Em 1985 levo um susto poético com o seu Perder a vida, dos livros mais belos publicados no Rio Grande do Sul. Começa matando:
“O mundo é belo demais para um só homem.
Olhem comigo o dia que nos coube, tomem,
Me deixem repartir tanta luz derramada,
Que se eu ficar sozinho, vou ficar sem nada”.
Uma simples pérola no invólucro negro do livro. Logo depois, o agnóstico lúcido ilumina:
“Que dia lindo!
Não fosse a vida
e se podia até
acreditar em Deus.”
Foi amor à primeira leitura e escrevi para ele. E assim fomos trocando impressões. Eu, claro, só arranhando; ele dissecando com sua verve absoluta. Eu aprendendo. Ele ensinando. Li praticamente tudo que publicou. E sobre tudo que lia, mandava-lhe parecer e opinião. Nem todas favoráveis, é verdade. Mas ele estava mais do que preparado para um critico despreparado. E assim fomos levando uma correspondência que durou anos. E eu gostava de me exceder no que gostava. Imaginem o impacto de uma primeira leitura do poema Exílio do livro Dias e Noites:
“A alma persiste, mas
foi-se a cor do cabelo,
a linha do corpo,
o rosto que a sorrir
levava à infância...
Nada era imprescindível, sei,
tanto que estou aqui
com a mesma alma.
Mas não chega.
Só a alma é um exílio.”
Impossível ser mais despojado, mais confessional, mais humano. E como aprende quem o lê! E fui, claro, obrigado a dizer-lhe isso. Sublimar as agruras da vida com a poesia, com a arte, parece ter sido um de seus lemas. Senão, como explicar o poema que segue?
Escudo que teu olhar mais doce despedaça
“A haste ergue o grito amarelo do cravo
e as coisas recuam de eco na sala.
Ah, se trouxesses a ventarola de tuas ternuras imprecisas,
eu beijaria o luar sonhando como uma criança cega
entre teus dedos.
Tira da boca o seio das minhas excitações contraditórias,
joga a cabeça com os cabelos para trás do que sabemos
de nós mesmos.
Quero-te eu, mas eu disperso de mim, vulnerável em tua
cristã inconsciência.
Pois não é sumir o que eu quero na noite com que envolvi
a sala num suspiro.
Não.
Talvez se trouxesses a tua boca oferecida
numa bandeja de prata,
eu a tomasse como não tomo o cravo vagindo amarelo
de dentro das minhas indecisões
e verias que meu olhar diria amo
quando não sei se não me importo.”
Por fim, do livro Vento, Águia, Coelho, um daqueles poemas definitivos. O mestre em uma de suas melhores performances.
Os poetas menores
“Os poetas menores vão conversar na livraria
Freqüentam palestras, congressos, seminários
E tardes de autógrafos pensando nas suas.
Os poetas menores participam de semanas culturais
E feiras do livro no Interior.
Só não estão em casa trabalhando. Não têm tempo.
Os poetas menores fazem visitas e são visitados.
Assistem à sessões em que conhecem a mesa e a platéia
e cumprimentam cada um.
São os primeiros a abraçar pelo prêmio ou a homenagem
e apesar disso
têm emprego, mulher, filhos,
fumam,
ou não fumam,
comem nas horas regulares
e escrevem. Não sei como.
Já os poetas andam atrás de sua poesia.
Segundo Faulkner, por ela deixariam morrer as tias.
As tias aí é eufemismo, a Bíblia diria pai e mãe.
Ninguém mais fácil de contentar do que um poeta menor.
Lembre de algo que ele publicou
e logo receberá em sua casa suas obras completas,
sempre mais numerosas que previa
e com dedicatórias de enrubescer o ego,
por desproporcional que seja, como é a regra.
Folheia livros e viu tudo,
se aproximam, não chegam, repetem, não dizem.
Mas o autor deseja opiniões precisas
e se refere a páginas que não estão
entre as vinte e duas que você leu
e não gostou.
A sorte é que supõe a favor o que é reserva
e sorri.
Para o poeta basta o que escreve,
o poema dá sentido à sua vida.
Sem o poema, restam ao poeta menor os comentários.
Não estranha que seus tímpanos dobrem de sensibilidade
ao menor sinal de interesse.
O poeta menor ri, fala macio, é prestimoso,
evita problemas na vida como na arte.
Por isso justamente é menor,
embora sofra tratando de não sofrer.
Na arena das relações e das letras,
não enfrenta os leões,
mas não acaba menos devorado,
pois há leões onde menos se espera.
Não se pode dizer que o poeta menor leve uma vida atribulada.
Busca se preservar de riscos,
o que às vezes é tão incômodo como corrê-los,
mas a falsa poesia que faz mostra que leva uma vida falsa.
Vivesse para valer, podia não ser poeta,
mas não seria um poeta menor.
O poeta menor não chora de noite como o poeta,
de noite ele dorme.
No outro dia, refeito, ocupa-se tanto
que não sobra espaço para o poema.
Já o poeta,
mesmo sem pensar no poema, o vive
e assim, quando vai ao seu encontro,
pode dar com ele.
Diante destes fatos, e outros de teor semelhante,
vê-se que os poetas não costumam ser agradáveis
e que os poetas menores são encantadores.
E ir ao poeta por seu poema
e folhear em pessoa o poeta menor.”
Paulo Hecker Filho, um dos maiores intelectuais do Rio Grande do Sul. Único, ao mesmo tempo teve braços para abraçar o mundo em sua multiplicidade. Faleceu aos 79 anos. Incompreendido por ter optado ser sincero antes com suas convicções, buscou ainda assim dividir com quem pudesse o que acumulou com anos de esforço pessoal e devoção solitária à Literatura.
Foto de Paulo Hecker Filho pescada do site de Paulo Bentancur com autorização.