Especial para o blog por Lucas Diemer
Com a transcrição de um som, uma das vozes narrativas sugere a história. Não se sabe quem está falando e nem quão envolvida está no relato que conta. A voz, ora afirma com propriedade e estabelece julgamento dos atos e pensamentos das personagens, ora põe em dúvida tudo aquilo que já relatou e traz marcas de imprecisão. De uma forma bastante inesperada, traça-se aqui o enredo da novela Jazz, escrita pela ganhadora do prêmio Nobel de Literatura Toni Morrison.
Os conflitos das personagens vão surgindo na estrutura comum de toda narrativa pós-moderna. Convém lembrar aqui que Jazz não procura destacar o cenário, as personagens ou mesmo o enredo em si. A novela é focada no estilo narrativo que adota. Embora o contexto histórico da obra seja muito palpável, usando o fenômeno sócio-cultural do Renascimento no Harlem nos EUA, apenas um elemento é explorado desse meio: o Jazz. A novela vai desenvolvendo um ritmo próprio com a linguagem e toda a métrica que é adicionada ao longo do arranjo (ou caminho). Muito do estilo musical é associado à estética de Jazz, desde o “call and response”, onde o narrador (aqui simplesmente chamado de narrador inicial) cuja identidade é desconhecida, ao descrever fatos, faz perguntas que adiante no texto são respondidas. Talvez a mais marcante das características do Jazz (o estilo musical) seja a improvisação, onde, ao longo de um arranjo, um dos músicos escolhe mudar sua nota – base do arranjo e, com isso, todos os demais músicos acompanham essa mudança com seus instrumentos. Então, novos focos narrativos surgem. Não apenas outros narradores, mas outras vozes que trazem consigo diferentes perspectivas. Define-se, então, uma pluralidade de narração onde vozes a partir do narrador inicial surgem baseadas em especulações e opiniões de personagens que ativam a primeira-pessoa e criam sua própria versão de um fato já mencionado. A partir dessas versões alternativas é possível ver a novela como uma coleção de versões de uma mesma história, visto que o conflito principal de Jazz é relatado nas primeiras páginas do livro.
Dá-se início, então, às diversas visões da história entre conjecturas onde diferentes ângulos retratam os mesmo acontecimentos ante a oscilação do foco narrativo. De forma intencional ou não, nenhuma voz de narração é anunciada e, ao serem analisadas em sua posição na narrativa, encontram-se em modos alternantes no âmbito da diegese, posto que seus papéis enquanto narradores ou personagens ora atuam dentro, ora fora da narrativa. É nesse momento que a narrativa pós-moderna solicita a interpelação do leitor, dentre as diversas versões, para se compor um total entendimento da história. Quando existe a interação com a história, ocorre o efeito “blurring”, isto é, o estreitamento dos limites conceituais dos elementos estruturais da narrativa: narrador, personagem e leitor.

Em Jazz, existe o narrador que oscila em seu lugar, estando, muitas vezes, próximo das personagens; ao mesmo instante, existem as personagens que em certos momentos, assumem a voz narrativa. Múltiplas vozes narrando os mesmos fatos mas de forma distinta, limitando-se ao seu próprio ponto de vista apenas. Os muitos relatos deixam "vazios" – onde há informação omitida não-intencionalmente ou implícita para algum propósito –, deixando para o leitor reparar essas brechas na novela.
A obra de Toni Morrison visa encontrar os verdadeiros leitores que, além de lê-la, passam a fazer parte da narrativa. Em épocas onde a maioria das ideias são semi-pensadas e as leituras sugeridas são repletas de popularidade mas vazias nos conceitos, o grande desafio é desvendar o texto literário em toda a sua complexidade, saindo da passividade da simples leitura e construir a sua própria interpretação.
Lucas Diemer é escritor. Publicou em 2008 "A poesia sobre nós".